Monday, October 26, 2020

Dos reencontros




Catarina e eu tínhamos um jeito natural de nos reencontrarmos. Frequentávamos os mesmos lugares sem querer. Já havia se tornado uma coisa normal na minha vida começar algum curso novo e encontrá-la no hall de entrada esperando para subir a outro andar. Ou certa vez em que nos esbarramos na fila para o teleférico em Campos do Jordão. E eu já estava acostumada a sentir o que vinha a seguir. Tontura, excitação, paixão e o congelamento nas entranhas. Catarina dominaria minha vida pelos próximos meses. E assim como me encontrou, desapareceria.

O maior tempo que ficamos sem nos falar foi durante uma troca intensa de redes sociais. Foram anos em silêncio. Pensei que a calmaria havia finalmente chegado à nossa história.
Num dia especialmente filosófico, em que estava convencida de que sem o vai e vem de Catarina a depressão se instalava em minha vida, tive coragem de a procurar numa rede azul. Bingo! Catarina me trataria com a mesma intensidade de sempre. A princípio me ludibriando com interesse comum, para em seguida falar em seu próprio linguajar. Me passaria instruções de onde ir, que dia da semana e como a esperar.

O dia passava arrastado e a ansiedade tomava conta de meu corpo em níveis alarmantes. Não consegui comer nada e isso iria piorar, pois eu tinha certeza que a bebida viria a galope para me ajudar. Era engraçado como eu sempre tentava fingir naturalidade e frieza perto de Catarina sem surtir o menor efeito. Era óbvio que transparecia em toda a minha linguagem corporal o quanto eu a desejava e quanto ela mexia comigo.
As instruções diziam para a esperar nos fundos de um bar com música ao vivo, encostada na parede mais longe da entrada. Eu precisaria estar em pé, e sem coisa alguma nas mãos. Cheguei muito mais cedo do que o combinado. Em hipótese alguma eu faria Catarina esperar. Além do mais, eu necessitaria de coragem líquida. Encostei no bar e pedi um conhaque. Péssima ideia! Eu já suava de ansiedade a antecipar o que viria, o conhaque me esquentou ainda mais. Mas não tinha jeito, eu precisava me acalmar, antes que meu coração parasse de funcionar. 'Acalme-se, Acalme-se!' Eu diria a mim mesma como num mantra. Curiosamente a combinação de álcool expresso e hipnose funcionara. Consegui me distrair por meia hora até que, quinze minutos antes do horário combinado o pânico viria me pegar novamente. A ansiedade batia na porta me chamando. 'Olá! Tentou se esconder de mim, não é? Mas não funcionou. Agora me coloque no colo!' Certo. Eu precisava de outra bebida rapidamente. Tequila? Muito forte. Vermute? Perigoso. Vinho? Perfeito! Apenas alguns goles fariam o truque acontecer. E além do mais, gosto do jeito aveludado que fica em minha língua.
Oito minutos. Corro para o banheiro e jogo agua fria na cara enquanto pessoas entram e saem dos quatro cubículos cinza metálicos. 'Calma porra!' Volto para a parede e a espero exatamente como ela havia me comunicado que deveria estar. Numa ultima tentativa de parecer descolada, encosto um pé na parede e meto as mãos no bolso como em todos aqueles filmes clichês dos anos 80. Ridículo! A quem eu pensava enganar?

O som tocava alto o suficiente para que o público presente se sentisse animado em dançar nos espaços possíveis. Eu olhava para o relógio, e me levantava na ponta dos pés para tentar enxergar a entrada. Já se passaram dez minutos. Ela está atrasada, claro! Nem sei por que eu achei que seria diferente. Catarina me parecia fazer tudo a seu tempo. E embora isso parecesse randômico, me insinuava um tom de calculismo. Ela sabia como me torturar, e me preparar para o que ela queria fazer comigo. Eu sempre estaria no ponto certo para alimentar Catarina.

De repente, vejo ao longe um olhar certeiro a me encarar. A cara fechada como sempre, e os punhos cerrados ao lado do corpo. A quem observasse a cena, pensaria que estaria para acontecer uma briga de socos. Engulo a seco e me arrumo em pé. Permaneço com as mãos no bolso enquanto a vejo se mexer em minha direção. Só consigo fixar no seu rosto e nos cabelos cacheados que eu tanto admirava. Catarina assumia os cachos sem medo, como tudo na vida. Por alguns segundos tive a impressão de que meu cérebro escolheu trabalhar em câmera lenta, só para registrar esse momento tão marcante. Seu rosto iluminava e escurecia a cada ponto de luz que atravessava. Uma vampira metódica acostumada a conseguir exatamente o que quer. Ela mirava no objetivo e só descansava depois de consumado. Eu pensava que ela iria chegar perto de mim e me dar mais instruções, mas a sua velocidade me indicava outra coisa. A poucos passos, Catarina levantou os braços em direção ao meu corpo e eu segurei a respiração. Ela não perderia tempo com banalidades ou conversas de rodeio. Dessa vez, sem nem me dizer olá, Catarina foi imediatamente de encontro a minha boca, trançando seus braços em volta de meu pescoço. Nossos lábios falavam uma língua toda particular. Era fome e desejo que nos transportava para uma ilha perdida.

Foram minutos infinitos de beijo forte e sem descanso. A saudade cobrava um preço caro, ao mesmo tempo que nos dava o segundo melhor beijo de nosso relacionamento incomum. Eu sentia o corpo fraquejar, Catarina sempre me deixava com os joelhos questionando o seu próprio funcionamento. Eu sentia o maxilar reclamar e então ela terminou o beijo para encostar a testa na minha. Me olhou nos olhos. 'Puta!' Disse e sorriu um sorriso largo para me deixar louca. Ela sabia que eu perdia uma batida do coração a cada vez que via aquelas covinhas. Suspirei de paixão e ela voltou a me beijar. Dessa vez enfiou a mão dentro de minha roupa, numa procura erótica por minha pele. Com a outra mão me apertava a bunda, só para em seguida me acariciar a vulva. Abusava de seu poder sobre mim sem arrependimento. O bar continuava a funcionar sem a mínima ciência de meus sentidos. Eu só conseguia escutar um som abafado em meus ouvidos, e sentir toda a vibração da força que era o espírito de Catarina. Essa vibração me deixava numa frequência escolhida a dedo.

Entre um beijo e outro Catarina falava palavras entrecortadas. 'Você. Me deixou. Doida. Com aquela foto.' Ela se referia a tatuagem que ela desconhecia, o meu dragão vermelho. Eu havia enviado a foto num ato deliberado de provocação. 'Vejo que. Surtiu efeito.' Eu rebati. Ela parou de me beijar e me olhou com ódio nos olhos. 'Eu preciso ver esse dragão!' Ela disse em tom de ordem, e então tentou abrir minha calça. 'Aqui não!' Eu a segurei. 'Tem muita gente.' Ela bufou e me puxou pela mão em direção ao banheiro. Me enfiou num cubículo e me encostou na parede desabotoando minha calça. 'Aqui não!' Repeti. 'Aqui sim!' Ela retrucava, segurando forte a minha calcinha e o zíper da calça. A minha prudência sempre batia de frente com a teimosia de Catarina. 'O que eu quero dizer é, que você pode ver o dragão numa posição melhor, numa cama.' Eu explicava. Ela olha para o chão e me parece pensar. 'Ok.' Responde e então enfia a mão com destreza para dentro de minha calcinha, em busca de respostas na ponta dos dedos. Me leu em braile numa caverna molhada, sem que os transeuntes do banheiro percebessem o que se passava. Eu gozava em pé, e ela teria que me amparar, para impedir uma queda. Em seguida me sentou na latrina e me acariciou os cabelos antes de se sentar em cima de mim. Sem me permitir recobrar o fôlego, se esfregava em mim num movimento de vai e vem enquanto me olhava nos olhos. 'Sabe que eu sempre gostei de sentar em você?' Ela admitia. 'É mesmo? Nunca percebi.' Eu ironizava. 'Ninguém nunca faz, como você faz.' Ela confidenciava e num susto leva a mão à boca em arrependimento. Era tarde demais. Agora eu sabia de segredos que Catarina escolhia esconder. Ninguém nunca faz, como eu faço. Uau! Ela sorri e se anima com a própria gafe. 'Acho que temos um encaixe muito especial.' Ela completa após destapar boca.
Deixo que ela aumente o ritmo e venho a delirar ouvindo seus gemidos. Ela levanta um pouco da minha camiseta e encara uma parte do dragão. 'Você vai na minha garupa comigo até algum lugar. Eu vou ver esse dragão hoje!' Falou apontando o dedo na minha cara e sem parar de se mexer, então voltou a olhar o dragão e gemeu ainda mais alto. Em seguida me abraçou forte e gozou.

Monday, October 12, 2020

Ribeirão




Estava em horário de almoço na empresa, e então ela chegou. Uma morena alta que eu nunca tinha visto por lá. Veio de Ribeirão Preto para ajudar a chefe a terminar um projeto especial.
A química foi imediata, não conseguíamos parar de nos olhar. Eu senti o desconforto nos estômago e as pernas batendo. Fiquei excitada e me mexi na cadeira. Fui até o corredor lavar o rosto, ela me seguiu sem que eu percebesse e quando me virei ela já estava colada em meu corpo me pegando pela nuca.
Nos beijamos ali mesmo, sem saber nada uma da outra que não fosse nossos nomes.
Ela havia me perguntado entre um beijo e outro, se eu tinha um quarto perto dali. Sim! Claro! Todos nós morávamos perto do projeto. Era importante estar disponível sempre que a chefe chamasse. Então você me leva lá, assim que der o horário. Ela não me perguntava, me notificava. Me deixou com a boca aberta, o cabelo bagunçado e saiu para a sala de reuniões como se nada tivesse acontecido.
Eu fiquei ali, parada por um tempo, tentando me recompor. Logo que voltei a realidade, me arrumei e fui para minha sala. De lá podia vê-la concentrada sobre a lousa dos milagres da chefe. Era assim que chamávamos o quadro. Uma lousa branca em que projetos impossiveis eram realizados. Vez ou outra, ela olhava para trás e me via através do vidro que separava nossas salas. Eu me assustava e fingia fazer algo, qualquer coisa.
Foi difícil terminar de trabalhar aquele dia, eu olhava o relógio e contava os segundos.
Devo ter perdido alguma coisa entre um segundo e outro, por que quando deu a hora certa, olhei para a sala da chefe e Ribeirão não estava mais lá. Pisquei atônita. Meu coração pesou. Juntei minhas coisas convencida de que tinha imaginado tudo em minha cabeça de vento e fui de encontro a escadaria. E lá estava ela, com a jaqueta jeans pendurada na cintura, e parte das costas prensada contra a parede fria. Estava com uma camiseta branca que caia aos lados e me provocava com um pouquinho dos ombros cheios de sardas. As alças do sutiã preto me encaravam gritando anarquias.
Você demorou. Disse ela antes de me puxar pela gola da camiseta e me beijar furiosamente.

Fomos para o meu quarto designado.
O projeto nos emprestava tudo, enquanto durasse a temporada. Um quarto simples com janelões de vidro e cortinas bege. Um banheiro adjacente. Uma cama um pouco maior do que de solteiro, e um abajur na cabeceira. Era tudo o que precisávamos. Todo o resto era fornecido no prédio do projeto. Alimentação, roupas, material para estudo, etc.
Perto das janelas, um sistema de proteção de metal pintado de azul marinho servia para nos proteger de possíveis enchentes. Levantar o metal trancava o quarto de modo mais seguro e impedia a força da água de destruir as casas.

Tirávamos as roupas em velocidade avançada e então escutamos um grupo de pessoas tentando entrar pelas janelas. Ela rapidamente travou as janelas e levantou a proteção de metal. Eu tranquei as portas enquanto ela voltava para a cama só de camiseta. Quando me deitei, ela encostou os lábios nos meus sem me beijar. Ficou com a boca como quem estivesse partindo para um beijo de língua, mas não o fez e ficou me olhando nos olhos. Eu achei aquilo tudo muito sensual e me deixei levar pelo momento até que me dei conta de que, enquanto eu me perdia em seu olhar, ela descia a mão até minha calcinha.
Não posso afirmar com certeza, mas creio que minhas pupilas dilataram nesse momento, como se meu organismo fosse de encontro a uma droga.

Era cedo demais! Eu dizia a ela: não faça isso. Você não sabe o que está fazendo. Desse jeito eu não vou durar. Ela respondia com a boca ainda colada na minha: isso é o que eu quero, e eu quero agora!

Quando você volta para Ribeirão?
Amanhã.
Eu não vou deixar.
Isso é o que nós vamos ver.