Saturday, August 22, 2020

Tango




Nadia é tango, é fogo, é calor!

Entro no salão como costumo as sextas-feiras. Vestida de calça preta, camisa branca e suspensório. Seguro a jaqueta preta atrás do ombro, e ajeito o chapéu.
É assim que ela gosta que eu me vista quando a vejo dançar. Deixo a música invadir meus sentidos e a encontro em pose. Congelada para melhor efeito dramático.
Com uma perna levemente arqueada à frente, o sapato vermelho mal encosta a ponta no chão. Ela segura a saia de rodar olhando para baixo.
Esta noite, está de meia-calça preta e cinta liga. Penso que Nadia faz de tudo para me provocar. 
Nadia, lábios carnudos, olhos amendoados, cabelos cacheados. Ela vivia me mandando mensagens me dizendo o que eu deveria fazer durante a semana, e ficava muito satisfeita quando entendia que eu a obedeceria.
Ela levanta o olhar devagar e sorri de leve quando se encontra com o meu.
O tango bate forte, violino afiado, meus olhos brilham ao ver Nadia me encarando com aquele olhar de atriz. Ela me olhava com o ar superior que eu a permitia ter. 

Nadia dança agora num salão cheio de alunos, mas meus olhos a viam dançar sozinha numa casa de espetáculos burlescos. E me envolvia todas as vezes com a sincronia em que encarava as aulas de tango. Ela vem batendo os sapatos no chão de madeira sem tirar os olhos de mim, e roda o corpo para levantar a saia. Me convida. 
A alguns passos antes de chegar até meu corpo, sinto o perfume dela me atacar primeiro. Fecho os olhos de prazer. Ela morde os lábios e se encosta de costas em mim. Desce o corpo balançando os ombros, para em seguida subir curvando as costas e me acertar em cheio. Ela se posta para trás e sua bunda esbarra bem onde já havia algo pulsante, a querendo. Algo que pulsava desde hoje de manhã, antecipando essa dança. 
Ela olha para trás e sorri satisfeita. Ganhou mais um ponto. Claro, Nadia sempre ganhava tudo comigo. Ela se afasta de mim e vai voltando para o ponto onde tudo começou. Enquanto dançava furiosa me encarava como se fosse me bater, me tirar sangue.
E não era o que eu queria?

Eu queria que Nadia me empurrasse na parede, me arranhasse, e me deixasse roxa.
Que me desse seus murros com força calculada e dissesse que estava puta comigo.
Eu apenas sorriria, e a beijaria a força enquanto ela fingiria tentar escapar de mim. 
E nessa noite, Nadia abusaria de mim.
Me levaria para um apartamento qualquer. Me amarraria numa cadeira de madeira. Me vendaria, e ficaria me torturando a madrugada toda.
Nadia sorriria malvada ao me ver tonta de desejo por ela.
Nem uma palavra, não era preciso, saberíamos o que fazer, ela conhece o meu sorriso.
A nossa volta somente as sirenes da cidade e o som do chicote se preparando para outro golpe. Eu me contorceria de dor e a escutaria gemer de prazer mas a música nos acompanharia a imaginação. O tango tocaria repetidamente em nossa mente para que nós, Nadia e eu, nos olhássemos e soubéssemos exatamente onde beijar, onde tocar. 

Nadia parou de dançar ao som de aplausos e com a cabeça bem erguida, como se faz tipicamente nesse tipo de dança. Colocou uma mão na cintura e caminhou decidida em minha direção como uma Gisele Bündchen da vida noturna. Parou dura a poucos centímetros de meu rosto, me olhou de cima a baixo tentando me humilhar, então se inclinou pra frente, encostou de leve os lábios nos meus e foi embora para o camarim...

Thursday, August 13, 2020

A casa de barro


Estou ficando louca...
Sonhei com ela de novo.

É noite. Eu tomo banho numa banheira velha de madeira, que hoje chamam de ofurô. Nada mais é do que uma caixa de madeira no quintal de uma casa numa rua deserta.
A casa é de terra batida. As paredes de barro e o telhado de sapê. Ao meu redor vários móveis que foram feitos para o lado de dentro. Nunca chove nesse lugar, o calor é a única constante.
É noite de céu estrelado, noite de festa junina.
O céu azul escuro e os sons dos bichos noturnos fazem contraste com os sons da água em minha pele.

Longe dali, música de dança, muita animação. Em mim, nada.
Um sentimento de incompletude. Algo me incomoda. Um vazio.

Me lavo de costas para o portão alto de ferro e lanças.
Mantenho a luz da garagem apagada. Não quero olhos desconhecidos me observando. Mas não me furto de minhas particularidades. O banho na banheira de madeira encostada na parede da casa, é um disparate da minha personalidade.
Me iluminava então a luz da rua. E por causa do telhado, me cortava no meio as sombras, mostrando só um ombro e metade das costas. 

Num arrepio, sinto os pêlos da nuca eriçar. Sinto uma presença, alguém me olhava.
Sem me preocupar muito, me viro devagar e olho para trás. Vejo uma pessoa parada em frente ao portão, me observando. Não sorria, nem estranhava o exibicionismo. 
Deixo meus olhos se acostumarem com a iluminação fraca e então reconheço aquele corpo. Reconheço  a postura, aqueles olhos, a boca e os cabelos cacheados.

Era Catarina. Me olhava com um olhar indefinido. 
Era assim que me parecia sempre que a via. Em geral carrego um certo talento para desvendar olhares. Com Catarina, nunca consegui essa façanha. Talvez por isso mesmo me envolvia de tal maneira.
Catarina era pra mim, inalcançavel. Uma combinação de mistério e prepotência. Me enredava com aquele olhar frio de indiferença, que me causava medo e excitação.
Uma bruxa contemporânea, que coleciona paixões.

Ela segurava duas barras do portão, como se as fosse fazer esfarelar só com a vontade de suas mãos.
As juntas dos dedos esbranquiçados pela força de sua fúria.
Eu não me abalo. Me viro de volta, e alcanço as chaves em cima de um criado-mudo perto da banheira. Viro de volta pra ela, jogo as chaves por baixo do portão, e volto a me lavar calmamente.

Não importa quantas vezes Catarina quebrou meu coração, eu já tinha aprendido que não adiantava tentar fugir ou me esconder. Era mais fácil deixar acontecer e esperar pelo fim. 
E depois tudo recomeçaria de novo. Estávamos completando 20 anos do eterno retorno de Catarina. Como um paradoxo moderno, eu já não conseguia mais acessar em minha memória o começo ou o fim. Tudo estava conectado como o mito de Ouroboros.

Escuto o ranger do portão enquanto Catarina entra, e em seguida o tilintar das chaves me avisa que ela o trancava por dentro.
Caminha na minha direção enquanto vejo a sombra dela crescer, e me cobrir por inteiro.
Devolve as chaves ao criado-mudo e respira fundo. Eu sinto o perfume dela, e todas as memórias me acertam como um soco no estomago. Eu fico alguns segundos esperando o inevitável, ela então toca minhas costas. Eu congelo.

Thursday, August 6, 2020

Ana Carolina



Ana estava dormindo do meu lado, de camiseta branca e calcinha.
Dividíamos a cama pois não havia outro lugar para ela dormir, e ela me pareceu não se importar nem um pouco com isso. 
Eramos amigas a um bom tempo, mas ela nunca havia expressado interesse sexual em mim, por isso mesmo eu mantinha uma distância respeitosa. 
Eu me sentia tensa, não conseguia dormir. Sempre me senti atraída por Ana, ela ticava todas as caixinhas de listas mentais do que eu achava atraente em uma mulher. Fiquei deitada olhando para o teto esperando o sono vir. 

Três da manhã, ela acordou meio zonza, e começou a se mexer, se espreguiçando. Devagar se virou para o meu lado da cama e posicionou o braço e perna esquerda em cima do meu corpo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Se aninhou em mim e sorriu. Eu só pisquei atônita ensaiando alguma pergunta mentalmente. Pergunta essa que nem consegui balbuciar, pois em seguida Ana se moveu para cima do meu corpo, sentou em cima de meu ventre, apoiou uma mão bem no meio de meus seios, e começou a se mexer para frente e para trás, sem perguntar se podia.
Ana Carolina é assim, ela toma o que quer. Acordara excitada e precisava fazer algo a respeito. 
Sem parar para pensar no que estava acontecendo, fui com as mãos em direção a cintura dela. Ela fechava os olhos e mordia a boca. Eu quase não acreditava no que acontecia. Um gelo tomou conta de minhas entranhas, enquanto o calor brotava entre minhas pernas. 
Qualquer mulher me deixava louca ao assumir essa posição. Tinha um misto de fetiche com o tom de dominação poder ver uma mulher me olhando de cima e ditando o ritmo.

Ela suspirava forte beirando aos gemidos, mas se segurava para não acordar quem dormia nos outros cômodos. A minha excitação só crescia vendo aquela delicia se mexer em cima de mim, me sentia a ponto de explodir em gozo. E enquanto ficava cada vez mais óbvio que ela estava se aproximando do destino, Ana levantou minha camiseta até que meus seios estivessem a mostra, e fez o mesmo com a camiseta dela antes de deitar o corpo permitindo que nossas peles comparassem o calor um do outro. Ela estava tão quentinha, foi um prazer receber aquele calor em mim e sentir aqueles seios maravilhosos encostados nos meus.
Ela apertou forte os olhos, ainda se mexendo em cima de mim com ritmo cada vez mais rápido e então começou a gemer baixinho. Foi em direção a minha boca,  me beijou com tesão nos lábios e gozou diminuindo o ritmo aos poucos.
Se apoiou com as mãos no meu colo, e ficou ali tremendo e respirando forte até recuperar as forças.

Quando abriu os olhos, deu uma risada gostosa como quem não acredita no que acaba de acontecer. Me deu mais um beijo molhado, se deitou do meu lado na mesma posição que estava antes e logo voltou a dormir.