Monday, January 11, 2021

Uma noite atípica.




A Tenente preferiu me levar na garupa de sua moto naquela noite de comemorações. Ela se vestiu com uma calça jeans elástica e bota cano alto. Mas levava no bauleto um vestido e sapatos de salto.
Chegando lá, colocou o vestido longo por cima da blusa de alça, trocou a bota pelo sapato e subiu a barra da calça até sumir atrás do vestido florido. Manteve a jaqueta preta por cima. Elegante sim, rebelde sempre.
Era uma das surpresas agradáveis da minha Tenente. Sempre me deslumbrava perante suas facetas inexploradas.

Após a cerimônia e uma longa ceia, eu desfrutava da companhia e do bom papo da Tenente quando sinto uma mão me tocar o ombro. 
Eu já tinha visto a figura transitando pelo local, e nossos olhos se cruzaram com certo desconforto. Mas preferi lidar o mais naturalmente possível com a situação.

- Podemos conversar? - Ela me perguntava.

Eu respondi que sim, e indiquei um lugar mais reservado perto da praia.
Antes de me encaminhar para onde os banhistas passavam boa parte do dia, pedi ao pé de ouvido da Tenente que me seguisse de longe. Que me observasse, e que não importasse o que visse, era importante não se aborrecer.

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A Tenente via a silhueta das duas mulheres conversando de longe como lhe foi pedido. A estranha parecia querer tocar as mãos de sua parceira e essa se esquivava. A linguagem corporal indicava remorso, explicações. Sua parceira de braços cruzados. A estranha parecia querer abraça-la. Pegava em sua roupa como quem implora por algo.
Minutos se passam enquanto a Tenente ouve apenas o barulho da água chegando na areia e voltando para o mar. O vento batendo teimosamente uma tira de cabelo em sua face, enquanto ela tentava o prender atrás da orelha.
De repente sua parceira vem em sua direção e a pega pelas mãos.

- Vamos?

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Subimos o morro de pedras em direção aos carros estacionados embaixo das luzes de rua pública. Eu me apoiei num carro e a segurei de frente. Esperamos um momento escutando o zumbido da potência das luzes amarelas antes de começarmos a conversar.
Eu e a Tenente tínhamos o hábito de conversar sobre tudo. E com a maior facilidade. Era o maior prazer do nosso relacionamento.
Ela então me perguntou sobre o que conversei com a moça misteriosa.

- Antes de começarmos, lembre-se do que combinamos. O passado ficou no passado. Eu e você temos uma coisa muito boa aqui. Nada disso me abala a ponto de mudar o que temos. Certo?
- Certo. - Ela me responde com um sorriso matador.

A Tenente era proprietária de um dos sorrisos mais lindos que eu já tinha visto na vida. Daqueles que automaticamente te faz sorrir também.
Eu contei a ela, que a moça queria dizer que sentia muito. Que sentia a minha falta e não sabia viver sem mim. Que me amava e tinha errado.
Era só desespero, não era real. Eu não podia fazer nada para ajudar. Eu agora pensava em mim e na minha saúde mental.

- Isso não mexe com você? - Ela pergunta, genuinamente preocupada com meu bem estar.
- Com certeza. - Respondi - Mas não da forma como se costuma pensar. Me incomoda um pouco. Acho a situação desagradável, e fico triste por ela estar perdida, mas nada altera o meu entendimento com você.

Nos abraçamos e ela sorri novamente. Então a afasto de mim a segurando pelas mãos, de modo a olhar para seu vestido. Uau!

- Você sabe que eu não consigo resistir quando você usa essa jaqueta. - Confesso
- Então vamos para casa?

O dia em que reencontrei a minha Fúria.

Lembrei daquela boca molhada, da pele e do beijo.
Do jeito bravo, das palavras de amor.
Lembrei do carinho e da paciência.
Que ela me dirigia sonetos e músicas.

Lembrei que o que ela queria, ela tinha.
Que a gente se beijou pisando no formigueiro, e que brigamos no chão de cimento por um R.G.

Lembrei que eu corria risco de morte, e que ela valia a pena.
Do dia em que ela cantou Luz dos Olhos me fazendo carinho no rosto.
Que ela apareceu certo dia sem avisar, e exigiu que eu me explicasse sobre uma Parada Gay. Estava achando que eu já tinha outra.

Mas era ela! Só ela. 
E foi ela, durante o tempo que ela me permitiu sua atenção.
A entidade que eu conheço como Catarina. 
Um Galactus da vida real. Ela vinha para devorar almas.

Um carbono concentrado queimando na chama azul do destino.
O diamante de sangue que ajudei a lapidar.
Mas eu não sabia tudo de Catarina. Claro que não.

Geralmente se faz necessário uma vida toda para conhecer de fato uma pessoa.
Passaram se vinte anos do nosso primeiro contato, e Catarina agora era pausada, comedida para certos assuntos. 
O Galactus estava na atmosfera terrestre em velocidade reduzida. 
Freava bem próxima a meus mares e vales, e se contentava em observar o comportamento humano para seu próprio deleite.

Divertia-se claro, nos vendo perder tempo com coisas banais.
Continuava sendo a delícia boreal.
Continuava controlando a narrativa.
Mas como uma anêmona do mar, se tornou cada vez mais indiferente à condição humana.