Monday, October 26, 2020

Dos reencontros




Catarina e eu tínhamos um jeito natural de nos reencontrarmos. Frequentávamos os mesmos lugares sem querer. Já havia se tornado uma coisa normal na minha vida começar algum curso novo e encontrá-la no hall de entrada esperando para subir a outro andar. Ou certa vez em que nos esbarramos na fila para o teleférico em Campos do Jordão. E eu já estava acostumada a sentir o que vinha a seguir. Tontura, excitação, paixão e o congelamento nas entranhas. Catarina dominaria minha vida pelos próximos meses. E assim como me encontrou, desapareceria.

O maior tempo que ficamos sem nos falar foi durante uma troca intensa de redes sociais. Foram anos em silêncio. Pensei que a calmaria havia finalmente chegado à nossa história.
Num dia especialmente filosófico, em que estava convencida de que sem o vai e vem de Catarina a depressão se instalava em minha vida, tive coragem de a procurar numa rede azul. Bingo! Catarina me trataria com a mesma intensidade de sempre. A princípio me ludibriando com interesse comum, para em seguida falar em seu próprio linguajar. Me passaria instruções de onde ir, que dia da semana e como a esperar.

O dia passava arrastado e a ansiedade tomava conta de meu corpo em níveis alarmantes. Não consegui comer nada e isso iria piorar, pois eu tinha certeza que a bebida viria a galope para me ajudar. Era engraçado como eu sempre tentava fingir naturalidade e frieza perto de Catarina sem surtir o menor efeito. Era óbvio que transparecia em toda a minha linguagem corporal o quanto eu a desejava e quanto ela mexia comigo.
As instruções diziam para a esperar nos fundos de um bar com música ao vivo, encostada na parede mais longe da entrada. Eu precisaria estar em pé, e sem coisa alguma nas mãos. Cheguei muito mais cedo do que o combinado. Em hipótese alguma eu faria Catarina esperar. Além do mais, eu necessitaria de coragem líquida. Encostei no bar e pedi um conhaque. Péssima ideia! Eu já suava de ansiedade a antecipar o que viria, o conhaque me esquentou ainda mais. Mas não tinha jeito, eu precisava me acalmar, antes que meu coração parasse de funcionar. 'Acalme-se, Acalme-se!' Eu diria a mim mesma como num mantra. Curiosamente a combinação de álcool expresso e hipnose funcionara. Consegui me distrair por meia hora até que, quinze minutos antes do horário combinado o pânico viria me pegar novamente. A ansiedade batia na porta me chamando. 'Olá! Tentou se esconder de mim, não é? Mas não funcionou. Agora me coloque no colo!' Certo. Eu precisava de outra bebida rapidamente. Tequila? Muito forte. Vermute? Perigoso. Vinho? Perfeito! Apenas alguns goles fariam o truque acontecer. E além do mais, gosto do jeito aveludado que fica em minha língua.
Oito minutos. Corro para o banheiro e jogo agua fria na cara enquanto pessoas entram e saem dos quatro cubículos cinza metálicos. 'Calma porra!' Volto para a parede e a espero exatamente como ela havia me comunicado que deveria estar. Numa ultima tentativa de parecer descolada, encosto um pé na parede e meto as mãos no bolso como em todos aqueles filmes clichês dos anos 80. Ridículo! A quem eu pensava enganar?

O som tocava alto o suficiente para que o público presente se sentisse animado em dançar nos espaços possíveis. Eu olhava para o relógio, e me levantava na ponta dos pés para tentar enxergar a entrada. Já se passaram dez minutos. Ela está atrasada, claro! Nem sei por que eu achei que seria diferente. Catarina me parecia fazer tudo a seu tempo. E embora isso parecesse randômico, me insinuava um tom de calculismo. Ela sabia como me torturar, e me preparar para o que ela queria fazer comigo. Eu sempre estaria no ponto certo para alimentar Catarina.

De repente, vejo ao longe um olhar certeiro a me encarar. A cara fechada como sempre, e os punhos cerrados ao lado do corpo. A quem observasse a cena, pensaria que estaria para acontecer uma briga de socos. Engulo a seco e me arrumo em pé. Permaneço com as mãos no bolso enquanto a vejo se mexer em minha direção. Só consigo fixar no seu rosto e nos cabelos cacheados que eu tanto admirava. Catarina assumia os cachos sem medo, como tudo na vida. Por alguns segundos tive a impressão de que meu cérebro escolheu trabalhar em câmera lenta, só para registrar esse momento tão marcante. Seu rosto iluminava e escurecia a cada ponto de luz que atravessava. Uma vampira metódica acostumada a conseguir exatamente o que quer. Ela mirava no objetivo e só descansava depois de consumado. Eu pensava que ela iria chegar perto de mim e me dar mais instruções, mas a sua velocidade me indicava outra coisa. A poucos passos, Catarina levantou os braços em direção ao meu corpo e eu segurei a respiração. Ela não perderia tempo com banalidades ou conversas de rodeio. Dessa vez, sem nem me dizer olá, Catarina foi imediatamente de encontro a minha boca, trançando seus braços em volta de meu pescoço. Nossos lábios falavam uma língua toda particular. Era fome e desejo que nos transportava para uma ilha perdida.

Foram minutos infinitos de beijo forte e sem descanso. A saudade cobrava um preço caro, ao mesmo tempo que nos dava o segundo melhor beijo de nosso relacionamento incomum. Eu sentia o corpo fraquejar, Catarina sempre me deixava com os joelhos questionando o seu próprio funcionamento. Eu sentia o maxilar reclamar e então ela terminou o beijo para encostar a testa na minha. Me olhou nos olhos. 'Puta!' Disse e sorriu um sorriso largo para me deixar louca. Ela sabia que eu perdia uma batida do coração a cada vez que via aquelas covinhas. Suspirei de paixão e ela voltou a me beijar. Dessa vez enfiou a mão dentro de minha roupa, numa procura erótica por minha pele. Com a outra mão me apertava a bunda, só para em seguida me acariciar a vulva. Abusava de seu poder sobre mim sem arrependimento. O bar continuava a funcionar sem a mínima ciência de meus sentidos. Eu só conseguia escutar um som abafado em meus ouvidos, e sentir toda a vibração da força que era o espírito de Catarina. Essa vibração me deixava numa frequência escolhida a dedo.

Entre um beijo e outro Catarina falava palavras entrecortadas. 'Você. Me deixou. Doida. Com aquela foto.' Ela se referia a tatuagem que ela desconhecia, o meu dragão vermelho. Eu havia enviado a foto num ato deliberado de provocação. 'Vejo que. Surtiu efeito.' Eu rebati. Ela parou de me beijar e me olhou com ódio nos olhos. 'Eu preciso ver esse dragão!' Ela disse em tom de ordem, e então tentou abrir minha calça. 'Aqui não!' Eu a segurei. 'Tem muita gente.' Ela bufou e me puxou pela mão em direção ao banheiro. Me enfiou num cubículo e me encostou na parede desabotoando minha calça. 'Aqui não!' Repeti. 'Aqui sim!' Ela retrucava, segurando forte a minha calcinha e o zíper da calça. A minha prudência sempre batia de frente com a teimosia de Catarina. 'O que eu quero dizer é, que você pode ver o dragão numa posição melhor, numa cama.' Eu explicava. Ela olha para o chão e me parece pensar. 'Ok.' Responde e então enfia a mão com destreza para dentro de minha calcinha, em busca de respostas na ponta dos dedos. Me leu em braile numa caverna molhada, sem que os transeuntes do banheiro percebessem o que se passava. Eu gozava em pé, e ela teria que me amparar, para impedir uma queda. Em seguida me sentou na latrina e me acariciou os cabelos antes de se sentar em cima de mim. Sem me permitir recobrar o fôlego, se esfregava em mim num movimento de vai e vem enquanto me olhava nos olhos. 'Sabe que eu sempre gostei de sentar em você?' Ela admitia. 'É mesmo? Nunca percebi.' Eu ironizava. 'Ninguém nunca faz, como você faz.' Ela confidenciava e num susto leva a mão à boca em arrependimento. Era tarde demais. Agora eu sabia de segredos que Catarina escolhia esconder. Ninguém nunca faz, como eu faço. Uau! Ela sorri e se anima com a própria gafe. 'Acho que temos um encaixe muito especial.' Ela completa após destapar boca.
Deixo que ela aumente o ritmo e venho a delirar ouvindo seus gemidos. Ela levanta um pouco da minha camiseta e encara uma parte do dragão. 'Você vai na minha garupa comigo até algum lugar. Eu vou ver esse dragão hoje!' Falou apontando o dedo na minha cara e sem parar de se mexer, então voltou a olhar o dragão e gemeu ainda mais alto. Em seguida me abraçou forte e gozou.

Monday, October 12, 2020

Ribeirão




Estava em horário de almoço na empresa, e então ela chegou. Uma morena alta que eu nunca tinha visto por lá. Veio de Ribeirão Preto para ajudar a chefe a terminar um projeto especial.
A química foi imediata, não conseguíamos parar de nos olhar. Eu senti o desconforto nos estômago e as pernas batendo. Fiquei excitada e me mexi na cadeira. Fui até o corredor lavar o rosto, ela me seguiu sem que eu percebesse e quando me virei ela já estava colada em meu corpo me pegando pela nuca.
Nos beijamos ali mesmo, sem saber nada uma da outra que não fosse nossos nomes.
Ela havia me perguntado entre um beijo e outro, se eu tinha um quarto perto dali. Sim! Claro! Todos nós morávamos perto do projeto. Era importante estar disponível sempre que a chefe chamasse. Então você me leva lá, assim que der o horário. Ela não me perguntava, me notificava. Me deixou com a boca aberta, o cabelo bagunçado e saiu para a sala de reuniões como se nada tivesse acontecido.
Eu fiquei ali, parada por um tempo, tentando me recompor. Logo que voltei a realidade, me arrumei e fui para minha sala. De lá podia vê-la concentrada sobre a lousa dos milagres da chefe. Era assim que chamávamos o quadro. Uma lousa branca em que projetos impossiveis eram realizados. Vez ou outra, ela olhava para trás e me via através do vidro que separava nossas salas. Eu me assustava e fingia fazer algo, qualquer coisa.
Foi difícil terminar de trabalhar aquele dia, eu olhava o relógio e contava os segundos.
Devo ter perdido alguma coisa entre um segundo e outro, por que quando deu a hora certa, olhei para a sala da chefe e Ribeirão não estava mais lá. Pisquei atônita. Meu coração pesou. Juntei minhas coisas convencida de que tinha imaginado tudo em minha cabeça de vento e fui de encontro a escadaria. E lá estava ela, com a jaqueta jeans pendurada na cintura, e parte das costas prensada contra a parede fria. Estava com uma camiseta branca que caia aos lados e me provocava com um pouquinho dos ombros cheios de sardas. As alças do sutiã preto me encaravam gritando anarquias.
Você demorou. Disse ela antes de me puxar pela gola da camiseta e me beijar furiosamente.

Fomos para o meu quarto designado.
O projeto nos emprestava tudo, enquanto durasse a temporada. Um quarto simples com janelões de vidro e cortinas bege. Um banheiro adjacente. Uma cama um pouco maior do que de solteiro, e um abajur na cabeceira. Era tudo o que precisávamos. Todo o resto era fornecido no prédio do projeto. Alimentação, roupas, material para estudo, etc.
Perto das janelas, um sistema de proteção de metal pintado de azul marinho servia para nos proteger de possíveis enchentes. Levantar o metal trancava o quarto de modo mais seguro e impedia a força da água de destruir as casas.

Tirávamos as roupas em velocidade avançada e então escutamos um grupo de pessoas tentando entrar pelas janelas. Ela rapidamente travou as janelas e levantou a proteção de metal. Eu tranquei as portas enquanto ela voltava para a cama só de camiseta. Quando me deitei, ela encostou os lábios nos meus sem me beijar. Ficou com a boca como quem estivesse partindo para um beijo de língua, mas não o fez e ficou me olhando nos olhos. Eu achei aquilo tudo muito sensual e me deixei levar pelo momento até que me dei conta de que, enquanto eu me perdia em seu olhar, ela descia a mão até minha calcinha.
Não posso afirmar com certeza, mas creio que minhas pupilas dilataram nesse momento, como se meu organismo fosse de encontro a uma droga.

Era cedo demais! Eu dizia a ela: não faça isso. Você não sabe o que está fazendo. Desse jeito eu não vou durar. Ela respondia com a boca ainda colada na minha: isso é o que eu quero, e eu quero agora!

Quando você volta para Ribeirão?
Amanhã.
Eu não vou deixar.
Isso é o que nós vamos ver.

Monday, September 28, 2020

Me experimenta antes de dizer não.

Eu tenho ganas de tocar sua pele. Sentir teu cheiro, teu calor. Você me deixa toda errada. Questionando cada frase. Me imaginando em sua boca. Desejando tua língua em mim.
Sua voz é um mistério. Me fere e atiça. Essa pele morena e seus cabelos negros me hipnotizam. Quero te beijar desprevenida. Quero invadir teu espaço te ouvir gemer e chamar meu nome.
Do que você me chamaria? Meu nome ou o apelido que me deu?

Quando penso em você, tenho vontade de dançar, te conhecer a fundo, te consumir por completo. Sei que as suas meninas são todas modelos, e eu talvez não caiba em seus parâmetros, mas a minha potência te garante um fim de semana de exaustão. Duvida?

Combina comigo de não se apaixonar e deixar rolar aquilo tudo que conversamos.
Me chama, mesmo que pareça estranho. A gente é toda errada, mas tudo bem. Me ensina o que você já sabe. Me mostra teu corpo. Deixa eu tocar sua pele. Deixa eu sentir sua língua em mim.

Thursday, September 24, 2020

Fur Blog




- Você não me parece bem. O que houve?
- Nada demais. Só mais um capítulo escrito. Só mais um livro na estante.
Algo rompeu em mim. Um terremoto, um tsunami. Tudo se revoltou e a terra se abriu.
Algo se rompeu em mim. Romperam comigo.
Agora fica só a sensação de rasgo da alma. Algo que a gente teima em usar como metáfora, mas não entende bem até entender. Chegou a minha vez de entender.
Eu senti a violenta ruptura no peito. Minha vez de ficar sem ar. Minha vez de ficar sem chão. Minha vez de ficar sem saber para onde ir.
Quase literalmente uma vala aberta no coração. Uma ferida. O vazio difícil de preencher. 
Agora eu sou apenas uma embalagem de plástico que foi descartada na caixa verde. Sinto que não estou em meu lugar, porém aqui espero. Eu e as garrafas de vidro vazias aguardamos pacientes.
Vão se passar meses até alguma maquina perceber o erro. Até me colocarem na caixa de cor vermelha. Meses até eu finalmente ser reciclada e poder mais uma vez ser reutilizada. Me sentir útil novamente. Ser necessária mais uma vez.
Você sabe...nada demais.
- Ah..certo. Desculpe por perguntar.

Thursday, September 17, 2020

Livros & Cadernos

Eu durmo agora com meus livros e cadernos. Tem sido de fato uma companhia mais assertiva. Faço deles, coleções em pilhas carinhosamente pendentes a um travesseiro sem serventia.
Prefiro assim. Se os preciso, estão lá. Se os toco, sei que haverá prazer e arte.
Nas noites de inspiração incontrolável, somos casais não monogâmicos. Somos, o que fomos feitos para ser.
A linha da vida se preenche em maestria. Tudo está em seu lugar agora. Nada mais cabe a tolos devaneios de um passado jovial.

Deixo para trás o oceano das promessas vazias.
Deixo para trás a ilha dos sonhos.
Se há um caminho óbvio a seguir, espero não haver tantas armadilhas quanto as que pisei. Levo comigo, o pouco no bolso da desilusão. O orgulho ferido como um dia ardido no Sol que não perdoa. A areia no corpo dos tombos de um ser claudicante. O desespero de quem busca água potável em situação de sobrevivência.
No lugar da vã esperança, a certeza de um projeto consequente.

O futuro não me aguarda, já me recebeu com uma lista de realidades. O presente é uma tatuagem na alma. Um lembrete diário do que é preciso ser feito quando olho no espelho.
Não há tempo a perder.
Mal vejo a hora de chegar em casa, para dormir com meus livros e cadernos.

Friday, September 4, 2020

A Baleia Azul Jubarte




Eu abro os olhos e vejo o céu azul claro. O vento sopra forte em minha face. Escuto o som de ondas quebrando em uma parede. Olho para o chão e reconheço a grande rocha tomada de corais pontiagudos. Estou segura com meu all-star vermelho. Caminho até a ponta da rocha para ver o mar. Me sento na beirada e observo as ondas explodirem em contato com a rocha. Sinto o cheiro de sal no ar e as gotículas do mar borrifando meu rosto. Permito que o vento sopre meus cabelos.

Me levanto e começo a descer a rocha pela escadinha disforme feita pela natureza. Caminho pela encosta até encontrar um lugar mais calmo para pular no mar. Entro na água de roupa e tênis e deixo as ondas leves me carregarem para longe, onde vivem outros seres. Observo o céu mudar de cor. Do azul celeste para o rosa despontando no horizonte. Do rosa para o laranja do por do Sol, até o arroxeado trazendo a noite e o escuro estrelado. Aprecio o som da água batendo em meu ouvido enquanto relaxo.

Permito que me corpo desça até as profundezas, mas paro em pé em certo ponto. Eu não tenho necessidade de respirar. Esse conceito não existe lá embaixo. A água está numa temperatura agradável, nada parecido com o frio costumeiro do fundo do mar. A sensação é de total conforto. Consigo enxergar pouco a meu redor, e então escuto os incríveis sons da grande baleia Azul-Jubarte que só existe nesse mundo imaginário. Ela nada em camera lenta em minha direção. Vai passar muito perto, me permitindo esticar a mão e tocá-la. Ela tem o tamanho de uma baleia Azul mas as características da Jubarte com nódulos ao redor do maxilar e nas nadadeiras. Ela se demora a passar por mim e o seu canto agora vibra em intensidade. Parece me tirar do lugar.

Esse momento é o por quê de toda essa jornada. O vínculo que tenho com a Jubarte me deixa em perfeito estado de relaxamento.



Enfim posso dormir.

Saturday, August 22, 2020

Tango




Nadia é tango, é fogo, é calor!

Entro no salão como costumo as sextas-feiras. Vestida de calça preta, camisa branca e suspensório. Seguro a jaqueta preta atrás do ombro, e ajeito o chapéu.
É assim que ela gosta que eu me vista quando a vejo dançar. Deixo a música invadir meus sentidos e a encontro em pose. Congelada para melhor efeito dramático.
Com uma perna levemente arqueada à frente, o sapato vermelho mal encosta a ponta no chão. Ela segura a saia de rodar olhando para baixo.
Esta noite, está de meia-calça preta e cinta liga. Penso que Nadia faz de tudo para me provocar. 
Nadia, lábios carnudos, olhos amendoados, cabelos cacheados. Ela vivia me mandando mensagens me dizendo o que eu deveria fazer durante a semana, e ficava muito satisfeita quando entendia que eu a obedeceria.
Ela levanta o olhar devagar e sorri de leve quando se encontra com o meu.
O tango bate forte, violino afiado, meus olhos brilham ao ver Nadia me encarando com aquele olhar de atriz. Ela me olhava com o ar superior que eu a permitia ter. 

Nadia dança agora num salão cheio de alunos, mas meus olhos a viam dançar sozinha numa casa de espetáculos burlescos. E me envolvia todas as vezes com a sincronia em que encarava as aulas de tango. Ela vem batendo os sapatos no chão de madeira sem tirar os olhos de mim, e roda o corpo para levantar a saia. Me convida. 
A alguns passos antes de chegar até meu corpo, sinto o perfume dela me atacar primeiro. Fecho os olhos de prazer. Ela morde os lábios e se encosta de costas em mim. Desce o corpo balançando os ombros, para em seguida subir curvando as costas e me acertar em cheio. Ela se posta para trás e sua bunda esbarra bem onde já havia algo pulsante, a querendo. Algo que pulsava desde hoje de manhã, antecipando essa dança. 
Ela olha para trás e sorri satisfeita. Ganhou mais um ponto. Claro, Nadia sempre ganhava tudo comigo. Ela se afasta de mim e vai voltando para o ponto onde tudo começou. Enquanto dançava furiosa me encarava como se fosse me bater, me tirar sangue.
E não era o que eu queria?

Eu queria que Nadia me empurrasse na parede, me arranhasse, e me deixasse roxa.
Que me desse seus murros com força calculada e dissesse que estava puta comigo.
Eu apenas sorriria, e a beijaria a força enquanto ela fingiria tentar escapar de mim. 
E nessa noite, Nadia abusaria de mim.
Me levaria para um apartamento qualquer. Me amarraria numa cadeira de madeira. Me vendaria, e ficaria me torturando a madrugada toda.
Nadia sorriria malvada ao me ver tonta de desejo por ela.
Nem uma palavra, não era preciso, saberíamos o que fazer, ela conhece o meu sorriso.
A nossa volta somente as sirenes da cidade e o som do chicote se preparando para outro golpe. Eu me contorceria de dor e a escutaria gemer de prazer mas a música nos acompanharia a imaginação. O tango tocaria repetidamente em nossa mente para que nós, Nadia e eu, nos olhássemos e soubéssemos exatamente onde beijar, onde tocar. 

Nadia parou de dançar ao som de aplausos e com a cabeça bem erguida, como se faz tipicamente nesse tipo de dança. Colocou uma mão na cintura e caminhou decidida em minha direção como uma Gisele Bündchen da vida noturna. Parou dura a poucos centímetros de meu rosto, me olhou de cima a baixo tentando me humilhar, então se inclinou pra frente, encostou de leve os lábios nos meus e foi embora para o camarim...

Thursday, August 13, 2020

A casa de barro


Estou ficando louca...
Sonhei com ela de novo.

É noite. Eu tomo banho numa banheira velha de madeira, que hoje chamam de ofurô. Nada mais é do que uma caixa de madeira no quintal de uma casa numa rua deserta.
A casa é de terra batida. As paredes de barro e o telhado de sapê. Ao meu redor vários móveis que foram feitos para o lado de dentro. Nunca chove nesse lugar, o calor é a única constante.
É noite de céu estrelado, noite de festa junina.
O céu azul escuro e os sons dos bichos noturnos fazem contraste com os sons da água em minha pele.

Longe dali, música de dança, muita animação. Em mim, nada.
Um sentimento de incompletude. Algo me incomoda. Um vazio.

Me lavo de costas para o portão alto de ferro e lanças.
Mantenho a luz da garagem apagada. Não quero olhos desconhecidos me observando. Mas não me furto de minhas particularidades. O banho na banheira de madeira encostada na parede da casa, é um disparate da minha personalidade.
Me iluminava então a luz da rua. E por causa do telhado, me cortava no meio as sombras, mostrando só um ombro e metade das costas. 

Num arrepio, sinto os pêlos da nuca eriçar. Sinto uma presença, alguém me olhava.
Sem me preocupar muito, me viro devagar e olho para trás. Vejo uma pessoa parada em frente ao portão, me observando. Não sorria, nem estranhava o exibicionismo. 
Deixo meus olhos se acostumarem com a iluminação fraca e então reconheço aquele corpo. Reconheço  a postura, aqueles olhos, a boca e os cabelos cacheados.

Era Catarina. Me olhava com um olhar indefinido. 
Era assim que me parecia sempre que a via. Em geral carrego um certo talento para desvendar olhares. Com Catarina, nunca consegui essa façanha. Talvez por isso mesmo me envolvia de tal maneira.
Catarina era pra mim, inalcançavel. Uma combinação de mistério e prepotência. Me enredava com aquele olhar frio de indiferença, que me causava medo e excitação.
Uma bruxa contemporânea, que coleciona paixões.

Ela segurava duas barras do portão, como se as fosse fazer esfarelar só com a vontade de suas mãos.
As juntas dos dedos esbranquiçados pela força de sua fúria.
Eu não me abalo. Me viro de volta, e alcanço as chaves em cima de um criado-mudo perto da banheira. Viro de volta pra ela, jogo as chaves por baixo do portão, e volto a me lavar calmamente.

Não importa quantas vezes Catarina quebrou meu coração, eu já tinha aprendido que não adiantava tentar fugir ou me esconder. Era mais fácil deixar acontecer e esperar pelo fim. 
E depois tudo recomeçaria de novo. Estávamos completando 20 anos do eterno retorno de Catarina. Como um paradoxo moderno, eu já não conseguia mais acessar em minha memória o começo ou o fim. Tudo estava conectado como o mito de Ouroboros.

Escuto o ranger do portão enquanto Catarina entra, e em seguida o tilintar das chaves me avisa que ela o trancava por dentro.
Caminha na minha direção enquanto vejo a sombra dela crescer, e me cobrir por inteiro.
Devolve as chaves ao criado-mudo e respira fundo. Eu sinto o perfume dela, e todas as memórias me acertam como um soco no estomago. Eu fico alguns segundos esperando o inevitável, ela então toca minhas costas. Eu congelo.

Thursday, August 6, 2020

Ana Carolina



Ana estava dormindo do meu lado, de camiseta branca e calcinha.
Dividíamos a cama pois não havia outro lugar para ela dormir, e ela me pareceu não se importar nem um pouco com isso. 
Eramos amigas a um bom tempo, mas ela nunca havia expressado interesse sexual em mim, por isso mesmo eu mantinha uma distância respeitosa. 
Eu me sentia tensa, não conseguia dormir. Sempre me senti atraída por Ana, ela ticava todas as caixinhas de listas mentais do que eu achava atraente em uma mulher. Fiquei deitada olhando para o teto esperando o sono vir. 

Três da manhã, ela acordou meio zonza, e começou a se mexer, se espreguiçando. Devagar se virou para o meu lado da cama e posicionou o braço e perna esquerda em cima do meu corpo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Se aninhou em mim e sorriu. Eu só pisquei atônita ensaiando alguma pergunta mentalmente. Pergunta essa que nem consegui balbuciar, pois em seguida Ana se moveu para cima do meu corpo, sentou em cima de meu ventre, apoiou uma mão bem no meio de meus seios, e começou a se mexer para frente e para trás, sem perguntar se podia.
Ana Carolina é assim, ela toma o que quer. Acordara excitada e precisava fazer algo a respeito. 
Sem parar para pensar no que estava acontecendo, fui com as mãos em direção a cintura dela. Ela fechava os olhos e mordia a boca. Eu quase não acreditava no que acontecia. Um gelo tomou conta de minhas entranhas, enquanto o calor brotava entre minhas pernas. 
Qualquer mulher me deixava louca ao assumir essa posição. Tinha um misto de fetiche com o tom de dominação poder ver uma mulher me olhando de cima e ditando o ritmo.

Ela suspirava forte beirando aos gemidos, mas se segurava para não acordar quem dormia nos outros cômodos. A minha excitação só crescia vendo aquela delicia se mexer em cima de mim, me sentia a ponto de explodir em gozo. E enquanto ficava cada vez mais óbvio que ela estava se aproximando do destino, Ana levantou minha camiseta até que meus seios estivessem a mostra, e fez o mesmo com a camiseta dela antes de deitar o corpo permitindo que nossas peles comparassem o calor um do outro. Ela estava tão quentinha, foi um prazer receber aquele calor em mim e sentir aqueles seios maravilhosos encostados nos meus.
Ela apertou forte os olhos, ainda se mexendo em cima de mim com ritmo cada vez mais rápido e então começou a gemer baixinho. Foi em direção a minha boca,  me beijou com tesão nos lábios e gozou diminuindo o ritmo aos poucos.
Se apoiou com as mãos no meu colo, e ficou ali tremendo e respirando forte até recuperar as forças.

Quando abriu os olhos, deu uma risada gostosa como quem não acredita no que acaba de acontecer. Me deu mais um beijo molhado, se deitou do meu lado na mesma posição que estava antes e logo voltou a dormir.

Thursday, July 30, 2020

Fernanda - parte dois



Quatro da tarde.
Combinamos de nos encontrar no estúdio.
Ela chega e me abraça forte. Me segura pela nuca. Me olha nos olhos e exclama.

- Estava com saudade!

Eu a beijo com carinho e a convido para ir à minha casa. Ela sorri e responde sem demora 'vamos já'.

Em casa, subimos com pressa para o meu quarto. 
Eu fecho a porta e a janela, acendo o abajur. Me deito na cama com os cotovelos me apoiando, e de pernas abertas, a chamando para se aproveitar de mim.
Ela atende ao meu pedido. Deita-se em cima de mim e me beija com vontade, com força.
Não me aguento. Imediatamente coloco as mãos dentro da blusa dela, e a seguro pela cintura. 
Ela, obviamente, geme. 
Era o tal do ponto fraco dela, que eu já conhecia, e fazia questão de abusar. 
Mas ela também sorri. E eu não perco a oportunidade de fazer piadinhas fora de hora. 
Mas o que eu não sabia era que eu acabava de encontrar uma parceira com respostas prontas e aniquiladoras. Funcionava quase como um 'cala a boca' pra mim.

- Nossa! Como você é facinha!
- Pra você eu sou mesmo... - Ela responde de olhos fechados.

Fico muda por uns segundos. Mas ainda tento fazer melhor.

- E é sempre assim? Rapidinha?
- Eu não tenho tempo pra joguinhos, Sucri. Posso tirar a blusa? - E gemia...

Tudo bem! Ela havia me vencido. Não tem como falar não a uma pergunta dessas. Ainda mais, se tratando de Fernanda. Deliciosa! 

Fernanda, 1,70 de pura gostosura. Cabelos originalmente castanhos que misteriosamente se transformavam em dourado expostos ao Sol. Uma boca rosada que acompanha um dos sorrisos mais lindos que já vi. As sobrancelhas grossas para afirmar o olhar fatal que mexe comigo e tantas outras mulheres. 
E para suavizar, olhos 'amendoados' como diria minha irmã. Olhos lindos, lindos!

Então ela tira. Puxa minha blusa pra cima e ameaça puxar meu sutiã. Pra dar uma espiada, sabe como é. 
Só ameaça. Neste momento ela para de gemer, se mexer, e fica quietinha, me fazendo carinho. Tocando e olhando meus seios cobertos, ela morde a boca. De repente me olha nos olhos e com um sorriso maravilhoso no rosto repete.

- Você é muito gostosa! Como pode?

E não me dá chance de resposta. Se deita de novo em cima de mim e me beija com força. Com vontade. 
Sem demora, passa a me tocar na cintura, nas costas, e enfia a mão por dentro da minha calça.

- Tira?
- Não.
- Ah Sucri, só um pouquinho vai.
- Não.
- Por que não?
- Tira a sua que eu tiro a minha.
- Tá bom!

Ops. Foi mais rápido que eu imaginava. Ela deita do meu lado e tira a calça sem cerimônias.

- Pronto, agora você.
- Não.
- Mas você prometeu!
- Eu menti.
- Não vale.
- Lógico que vale!

Ela insiste. Segura minha calça pelo cós e puxa pra baixo.

- Deixa vai.
- Não.
- Tira essa calça! - Fala num tom mais sério, mas no final dá risada do próprio tom autoritário.

Briga comigo, como se brigasse com uma criança.

- Não! Outro dia quem sabe, deixa no gelo.
- Que mané gelo o que! Deixa eu te sentir vai. - Toda manhosa.

Ela então começa a formular uma explicação viável para que nós duas, nesse momento pudéssemos transar. Falava algo sobre o pouco tempo que tinha, e que eu iria me arrepender. É claro que era só curtição da minha parte. Enquanto ela falava eu tirava a calça tentando não deixar ela perceber. 
De supetão, me encosto nela. Novamente a faço parar de falar e começar a gemer. Ela agora sussurra.

- Meu Deus! Como você é gostosa!
- O que você tava falando?
- Ahn? Não sei, perdi o fio da meada.
- Continua.
- Não quero mais. Hmm, vem cá!

E me puxa forte de encontro a ela. 

- Você é toda quentinha...

Eu adoro elogios que vem dela. Aquela mulher. Deliciosa, carinhosa, verdadeira, linda e suave. Elogios são como chocolate branco pra mim, quase me faz gozar.

Ela me quer em cima dela, eu a quero em cima de mim. 
Ela me puxa pra cima dela e me faz gozar.

E quando eu deito do lado dela, ela me abraça novamente e me faz carinho. Me olha nos olhos.
Eu deslizo minha mão pelas costas dela. Quase sem encostar os dedos em sua pele. 
Ela treme. Geme. Me aperta. E não se segura.

Fernanda senta e prende os cabelos em ‘rabo de cavalo’. Eu já havia sido avisada sobre isso. Fonte segura garantia que era ali que eu deveria começar a ter medo.
Uma outra Fernanda estaria comigo agora, uma mais determinada, mais séria.
Como uma Dominatrix chicoteando seu escravo.

Ela se impõe. Senta em cima de mim. Me olha nos olhos e avisa que está no comando.
Eu apenas a observo. Deixo que ela mande em mim. Ela se mexe devagar e me segura pelos ombros.
Não demora a fechar os olhos e morder a boca. Franzir a testa. E fazer uma voz diferente.

Eu adoro a voz diferente dela. Adoro tudo! Adoro a voz forte, os sussurros, e nesses momentos, a outra voz que eu insisto em chamar de 'voz de menininha'.
Ela odeia. Fala que é mentira. Que não tem voz de menininha coisa nenhuma! Que não se escuta falando assim. 
Mas ela muda sim o tom de voz, e nem percebe. É uma voz deliciosa. Principalmente quando geme. 

Ela goza e me faz gozar. Definitivamente, me faz gozar!

- Você inclina o corpo e fecha os olhos quando... - ela fala meio envergonhada.
- Quando...?
- Você sabe. Quando eu te faço carinho.

Ela se vira de costas e se encolhe abraçando o travesseiro. Eu me sinto tentada a encostar nela, mas me lembro dela me falando que não gosta disso. Se sente desconfortável.
Não resisto. Aquele corpo maravilhoso, com aquela pele macia e quentinha, aqueles cabelos cheirosos assim na minha frente. 
Encosto nela devagar, não quero assustar. Mantenho minha cabeça apoiada pelo braço direito e com o esquerdo faço carinho nas costas dela. Bem devagar. 
Beijo a nuca dela, e ela se arrepia. Passo a minha boca molhada pela nuca, ombros, e pescoço dela. 
Ela sorri e vira só a cabeça pra me beijar. Continuo por um tempo acariciando sua nuca costas e os ombros. E me afasto brincando.

- Pensei que você não gostasse de ninguém atrás de você.
- É, eu tava pensando nisso. - ela começa a se virar pra mim. - mas estava tão gostoso.

Eu sinto vontade de beija-la até a noite seguinte.