Thursday, August 13, 2020

A casa de barro


Estou ficando louca...
Sonhei com ela de novo.

É noite. Eu tomo banho numa banheira velha de madeira, que hoje chamam de ofurô. Nada mais é do que uma caixa de madeira no quintal de uma casa numa rua deserta.
A casa é de terra batida. As paredes de barro e o telhado de sapê. Ao meu redor vários móveis que foram feitos para o lado de dentro. Nunca chove nesse lugar, o calor é a única constante.
É noite de céu estrelado, noite de festa junina.
O céu azul escuro e os sons dos bichos noturnos fazem contraste com os sons da água em minha pele.

Longe dali, música de dança, muita animação. Em mim, nada.
Um sentimento de incompletude. Algo me incomoda. Um vazio.

Me lavo de costas para o portão alto de ferro e lanças.
Mantenho a luz da garagem apagada. Não quero olhos desconhecidos me observando. Mas não me furto de minhas particularidades. O banho na banheira de madeira encostada na parede da casa, é um disparate da minha personalidade.
Me iluminava então a luz da rua. E por causa do telhado, me cortava no meio as sombras, mostrando só um ombro e metade das costas. 

Num arrepio, sinto os pêlos da nuca eriçar. Sinto uma presença, alguém me olhava.
Sem me preocupar muito, me viro devagar e olho para trás. Vejo uma pessoa parada em frente ao portão, me observando. Não sorria, nem estranhava o exibicionismo. 
Deixo meus olhos se acostumarem com a iluminação fraca e então reconheço aquele corpo. Reconheço  a postura, aqueles olhos, a boca e os cabelos cacheados.

Era Catarina. Me olhava com um olhar indefinido. 
Era assim que me parecia sempre que a via. Em geral carrego um certo talento para desvendar olhares. Com Catarina, nunca consegui essa façanha. Talvez por isso mesmo me envolvia de tal maneira.
Catarina era pra mim, inalcançavel. Uma combinação de mistério e prepotência. Me enredava com aquele olhar frio de indiferença, que me causava medo e excitação.
Uma bruxa contemporânea, que coleciona paixões.

Ela segurava duas barras do portão, como se as fosse fazer esfarelar só com a vontade de suas mãos.
As juntas dos dedos esbranquiçados pela força de sua fúria.
Eu não me abalo. Me viro de volta, e alcanço as chaves em cima de um criado-mudo perto da banheira. Viro de volta pra ela, jogo as chaves por baixo do portão, e volto a me lavar calmamente.

Não importa quantas vezes Catarina quebrou meu coração, eu já tinha aprendido que não adiantava tentar fugir ou me esconder. Era mais fácil deixar acontecer e esperar pelo fim. 
E depois tudo recomeçaria de novo. Estávamos completando 20 anos do eterno retorno de Catarina. Como um paradoxo moderno, eu já não conseguia mais acessar em minha memória o começo ou o fim. Tudo estava conectado como o mito de Ouroboros.

Escuto o ranger do portão enquanto Catarina entra, e em seguida o tilintar das chaves me avisa que ela o trancava por dentro.
Caminha na minha direção enquanto vejo a sombra dela crescer, e me cobrir por inteiro.
Devolve as chaves ao criado-mudo e respira fundo. Eu sinto o perfume dela, e todas as memórias me acertam como um soco no estomago. Eu fico alguns segundos esperando o inevitável, ela então toca minhas costas. Eu congelo.

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