Nadia é tango, é fogo, é calor!
Entro no salão como costumo as sextas-feiras. Vestida de calça preta, camisa branca e suspensório. Seguro a jaqueta preta atrás do ombro, e ajeito o chapéu.
É assim que ela gosta que eu me vista quando a vejo dançar. Deixo a música invadir meus sentidos e a encontro em pose. Congelada para melhor efeito dramático.
Com uma perna levemente arqueada à frente, o sapato vermelho mal encosta a ponta no chão. Ela segura a saia de rodar olhando para baixo.
Esta noite, está de meia-calça preta e cinta liga. Penso que Nadia faz de tudo para me provocar.
Nadia, lábios carnudos, olhos amendoados, cabelos cacheados. Ela vivia me mandando mensagens me dizendo o que eu deveria fazer durante a semana, e ficava muito satisfeita quando entendia que eu a obedeceria.
Ela levanta o olhar devagar e sorri de leve quando se encontra com o meu.
O tango bate forte, violino afiado, meus olhos brilham ao ver Nadia me encarando com aquele olhar de atriz. Ela me olhava com o ar superior que eu a permitia ter.
Nadia dança agora num salão cheio de alunos, mas meus olhos a viam dançar sozinha numa casa de espetáculos burlescos. E me envolvia todas as vezes com a sincronia em que encarava as aulas de tango. Ela vem batendo os sapatos no chão de madeira sem tirar os olhos de mim, e roda o corpo para levantar a saia. Me convida.
A alguns passos antes de chegar até meu corpo, sinto o perfume dela me atacar primeiro. Fecho os olhos de prazer. Ela morde os lábios e se encosta de costas em mim. Desce o corpo balançando os ombros, para em seguida subir curvando as costas e me acertar em cheio. Ela se posta para trás e sua bunda esbarra bem onde já havia algo pulsante, a querendo. Algo que pulsava desde hoje de manhã, antecipando essa dança.
Ela olha para trás e sorri satisfeita. Ganhou mais um ponto. Claro, Nadia sempre ganhava tudo comigo. Ela se afasta de mim e vai voltando para o ponto onde tudo começou. Enquanto dançava furiosa me encarava como se fosse me bater, me tirar sangue.
E não era o que eu queria?
Eu queria que Nadia me empurrasse na parede, me arranhasse, e me deixasse roxa.
Que me desse seus murros com força calculada e dissesse que estava puta comigo.
Eu apenas sorriria, e a beijaria a força enquanto ela fingiria tentar escapar de mim.
E nessa noite, Nadia abusaria de mim.
Me levaria para um apartamento qualquer. Me amarraria numa cadeira de madeira. Me vendaria, e ficaria me torturando a madrugada toda.
Nadia sorriria malvada ao me ver tonta de desejo por ela.
Nem uma palavra, não era preciso, saberíamos o que fazer, ela conhece o meu sorriso.
A nossa volta somente as sirenes da cidade e o som do chicote se preparando para outro golpe. Eu me contorceria de dor e a escutaria gemer de prazer mas a música nos acompanharia a imaginação. O tango tocaria repetidamente em nossa mente para que nós, Nadia e eu, nos olhássemos e soubéssemos exatamente onde beijar, onde tocar.
Nadia parou de dançar ao som de aplausos e com a cabeça bem erguida, como se faz tipicamente nesse tipo de dança. Colocou uma mão na cintura e caminhou decidida em minha direção como uma Gisele Bündchen da vida noturna. Parou dura a poucos centímetros de meu rosto, me olhou de cima a baixo tentando me humilhar, então se inclinou pra frente, encostou de leve os lábios nos meus e foi embora para o camarim...
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