Abri os olhos para o silêncio.
Eu não conseguia reconhecer o lugar. Ou talvez eu não queria reconhecer.
Estava escuro, de noite, numa rua.
Uma rua deserta. Uma rua sem saída. Uma rua que parecia não ter propósito algum, senão aquele encontro.
O silêncio não me incomodava. Nem o vento seco na noite fria de Guarulhos.
Não, não é que em Guarulhos faça sempre frio.
Aquele lugar fazia frio. Ou então eu tremia de emoção e medo por dentro e simplesmente sentia necessidade de culpar o ar.
Começava a me localizar. Na verdade, aceitar o que estava bem à frente de meus olhos.
Uma rua sem saída cercada de grama alta. Quase até meus joelhos.
Postes com iluminação fraca, laranja.
Um daqueles latões de entulho na ponta da rua.
Um pouco mais a frente, a avenida principal. Totalmente escura, como eu bem lembro. Perigosa.
De tempo em tempo, algum carro passava a mais de 100 por hora.
Aí sim, ventava. Meus cabelos tentavam fugir daquilo tudo. Teimavam tapar meus olhos. Só pra, em seguida, voltarem para a posição natural.
Passavam tão apressados, os carros, que eu balançava.
Mas o que balançava mesmo era o meu coração, que não conseguia acreditar naquela surpresa.
Eu sentia meu pulmão se esforçando, coitado, até ele.
Eu simplesmente congelei. Pra mim o tempo congelou.
Sabe aquela expressão “meus pés não saíam do lugar.”?
Pois é, foi bem ali que eu descobri o real significado dessa frase.
A noite agora se declarava.
Reconheci o barulho alto das turbinas de avião se preparando pra decolar.
E mesmo sem tirar os olhos dela, via as luzes de outros aviões, pequeninos lá no céu, rodando e esperando autorização para pouso.
As mãos dela seguravam firmes, alças de malas pretas.
Nas costas, uma mochila vermelha.
Cabelos soltos. O ruivo natural que ela sempre usou com orgulho.
Camiseta rosa com uma estampa esquisita e aquela calça preta que tantas vezes a vi vestir e despir. Na cintura, um moletom amarrado.
Ela me olhava. Mas eu não sabia o que aquilo significava. Eu não sabia se era um olhar de carinho, de surpresa, de tristeza, de saudade, de medo, de indiferença ou simplesmente de vontade de me abraçar.
Nos olhávamos seriamente. Sem sorrir nem franzir a testa. Um olhar sem entender.
Eu não sabia se tinha algo a dizer.
Só sabia do que havia dentro de mim. E o que ia explodir dentro de mim alguns segundos a seguir.
Foram segundos, esses, que me pareciam anos. Décadas. Segundos congelada, sem piscar, que me seguravam ali, sem saber o que fazer, o que dizer, como agir.
Finalmente tropeço em uma tentativa de passo. E continuo a olhar pra ela. Agora com um sorriso nos lábios, e febre na pele.
De pano de fundo: Aeroporto internacional de Guarulhos, com todas as suas luzes.
Menos de dois metros à minha frente: Yolanda.
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